Uberaba, 05 de agosto de 2010
Pai,
Em dezessete anos de vida, acho que essa é a primeira vez que “nos falamos”, hã? Seria cômico se não fosse trágico, ouso dizer.
Às vezes eu fico pensando: por que será que você teve que ir embora tão cedo? A gente sempre tenta acreditar que pra tudo tem uma explicação, um motivo, essas coisas, mas isso eu não consigo entender. Por que você, ou o senhor, não está aqui conosco? Sua ida foi tão dolorosa. Embora eu não a tenha sentido, pois era muito novo pra me lembrar com clareza, sei que foi, para todos nós, pois você era uma pessoa muito querida, sei bem.
Ontem eu estava lendo aquele caderninho amarelo que você deixou escrito pra que nós lêssemos. Realmente, você foi uma pessoa muito enigmática. Enigmática e profética. Sei lá, quando minha tia diz que você foi um “espírito de luz”, que não era uma pessoa igual às outras, que tinha uma ligação diferente com Deus e essas coisas... tenho medo de quase acreditar. Não é possível uma pessoa predizer coisas incertas com tanta precisão. Como pode alguém profetizar a própria morte?
Bom, isso não importa. Sei que li aquelas anotações ontem e me emocionei, de certa forma. Também fico feliz por saber que estou seguindo os aconselhamentos que você nos deixou, na medida do possível e do meu alcance.
Às vezes fico pensando... Como seria a nossa relação se você fosse vivo? Minha relação com a minha mãe é de uma amizade imensurável, de acordo com o que você, novamente, já havia dito quando a gravidez inesperada que me gerou surgiu: “Esse menino é quem vai cuidar de você”. Meu irmão já existia, mas você não disse “Você vai ter dois filhos pra cuidar de você”, não. “Esse menino é quem vai cuidar de você”. Que coisa fantástica, pra não dizer espantosa.
Noutras vezes eu acho que até sinto saudade. Não sei se saudade é a palavra mais apropriada, pois eu nem me lembro de você, apenas muito vagamente, e não dá pra sentir saudade de uma coisa assim tão abstrata. Mas falta, sim, você faz. Como já disse, não sei se nos daríamos muito bem, visto que seríamos um tanto diferentes, em vários aspectos. Será que você me expulsaria de casa quando descobrisse que eu sou gay? Ou teria vergonha de mim? Ou eu teria vergonha de você? Ou eu nem seria assim? E se? E se? Tanta coisa poderia ser diferente, não é? Tsc...
Não sei se posso dizer que te amo, afinal não te conheci muito bem, mas posso dizer que te admiro. Muito mesmo. Por ter sido um homem honesto, justo, trabalhador, honrado, por nunca ter deixado nos faltar nada, por ter sido um pai dedicado... Essas coisas.
Minha tia Fátima, sua irmã, diz que os sonhos são os espíritos vindo nos visitar. Sei lá se isso é verdade, mas a minha mãe sempre sonha com você. Sempre. E, se minha matemática não falha, semana passada foi a terceira vez, em dezessete anos, que você veio me visitar. Seja lá onde você estiver, seja lá isso verdade ou mentira, seja lá o que for, visite-me mais vezes. Uma pena não podermos trazer os mortos de volta à vida. Se esse desejo me fosse concedido, eu o traria sem pensar duas vezes.
Não sei que advérbio usar para me despedir, tudo me soa muito formal. Então que você, ou senhor, não sei como gostaria de ser tratado, esteja bem, onde quer que esteja. Um abraço.
Natan
Nossa, eu me emocionei demais, que lindo, Natan!
Tenho certeza que de onde seu pai estiver ele sente muito orgulho de vc, vc está assumindo o lugar dele com maestria, cuidando da sua mãe...
Bjs!